sábado, 18 de abril de 2009

Sobre o Suicídio
Antes de me suicidar exijo que me assegurem a respeito do ser, eu gostaria de estar seguro a respeito da morte. A vida me parece apenas como um consentimento à legibilidade aparente das coisas e à sua ligação no espírito. Eu não me sinto mais como a encruzilhada irredutível das coisas, a morte que cura, cura ao nos separar da natureza; mas se eu não sou mais que um divertimento de dores onde as coisas não passam? Se eu me mato, não será para me destruir, mas para me reconstituir, o suicídio não será para mim senão um meio de me reconquistar violentamente, de irromper brutalmente em meu ser, de antecipar o avanço incerto de Deus. Pelo suicídio, eu reintroduzo meu desígnio na natureza, eu dou pela primeira vez às coisas a forma de minha vontade. Eu me livro deste condicionamento de meus órgão tão mal ajustados com meu eu e a vida não é mais pra mim um acaso absurdo onde eu penso aquilo que me dão a pensar. Eu escolho então meu pensamento e a direção de minhas forças, de minhas tendências, de minha realidade. Eu me coloco entre o belo e o feio, o bom e o malvado. Eu me torno suspenso, sem inclinação, neutro, exposto ao equilíbrio das boas e das más solicitações...É certamente algo abjeto ser criado e viver e sentir-se nos mínimos recônditos, até nas ramificações mais impensadas de nosso ser irredutivelmente determinado. Não somos mais do que árvores, no fim de contas, e está provavelmente inscrito em uma extremidade qualquer da árvore de minha raça que eu me matarei um determinado dia...Pode ser que nesse instante se dissolva o meu ser, mas se ele permanecer inteiro, como reagirão meus órgãos arruinados, com que impossíveis órgãos registrarei eu o dilaceramento? Eu sinto a morte sobre mim como uma torrente, como o salto instântaneo de um raio cuja capacidade eu não imagino...Mas eis Deus de repente como um punho, como um feixe de luz cortante. Eu me separei voluntariamente da vida, eu quis remontar meu destino! E este Deus, o que diz ele? Eu não sentia a vida, a circulação de toda idéia moral era para mim como um rio seco. A vida não era para mim um objeto, uma forma; ela se tornara para mim uma série de raciocínios. Mas de raciocínios que giravam no vazio, de raciocínios que não giravam, que eram em mim como "esquemas" possíveis que minha vontade não conseguia fixar...Deus me colocou no desespero como em uma constelação de impasses cuja radiação chega a mim. Eu não posso nem morrer, nem viver, nem desejar morrer ou viver. E todos os homens são como eu.
Antonin Artaud (Linguagem e Vida)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Depois de tantas outras tentativas, decidiu-se comer o coração e engolir as artérias. Cuspir os amores, as histórias e toda a sorte. Se fosse duma outra vez teria chorado, limpado e continuaria vivendo. Agora vive e vive um pouco melhor; nunca decidir, engolir e cuspir estiveram tão perto do fracasso.
- Então lembrou-se que não tinha quase nada à perder -

domingo, 5 de abril de 2009

Terry Richardson diz: "Sexo vende"Terry Richardson é um fotógrafo de moda americano.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Eu era uma moeda, como não queriam?



O flautista de Hamelin é um conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelo Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284.


Em 1284, a cidade de Hamelin estava sofrendo com uma infestação de ratos. Um dia, chega à cidade um homem que reivindica ser um "caçador de ratos" dizendo ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos - uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser.

Apesar de obter sucesso, o povo da cidade abjurou a promessa feita e recusado-se a pagar o "caçador de ratos", afirmando que ele não havia apresentado as cabeças. O homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, aonde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram seus opulentos habitantes e seus repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por suas sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.
E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.


Óh amargo hipnotizador, o que o fez pensar que essas crianças lhe vingaria as moedas? Nem ao menos eram feitas de ouro. Ou eram? Hipnotize-me agora pois, sou maciço e valho muito para continuar vivendo.



(i'm sorry.)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

HIPPOCAMPUS

"Os hippocampus eram seres fictícios da mitologia grega, filhos de Poseidon. A parte superior de seu corpo era a de um cavalo com crina membranosa, guelras e membranas interdigitais nos supostos cascos, e sua parte inferior era de um golfinho. Os Hipocampus eram empregados pelo Deus dos Mares em sua maioria na espionagem e na patrulha por seu reino oceânico em busca de empecilhos; também eram conhecidos como cavalo marinho".
Mas para mim, os cavalos marinhos eram libélulas sem as asas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Solo 2º ano, artes cênicas UEL - atriz Raquel Palma

"A realidade, embora me enjoe, também me serve. Mantenho os olhos disfarçadamente abertos - clandestina - depois os fecho definitivamente e reinvento modalidades cabíveis. Só não me ausentei ainda porque sou eu quem escolho o que quero dos dias e das pessoas que me chamam pelo nome. As vezes, finjo que não as ouço. E não ouço mesmo. Manter-me viva, noite após noite, até que me envaidece, porém, se me tivessem oferecido alguma opção eu escolheria transitar por um lugar estranho que satisfizesse meu egoísmo passageiro. Carrego comigo uma lista de felicidades e impropérios, são meus objetivos surreais. Algumas imagens me bastariam, delírios passageiros no deserto que eu inventei para não morrer cedo e intacta."

(Ivana Debértolis, escritora, Londrina/PR)
www.ivanadebertolis.blogspot.com








Começo por me identificar, eu sou um cachorro.
Que não vai responder a nenhuma pergunta, mesmo porque não sei as respostas.Aqui onde estou posso passar quase despercebido em meio de outros que também levam os crachás dependurados no pescoço como os rótulos das garrafas de uísque. Que ninguém lê com atenção, estão todos muito ocupados para se interessar de verdade por um próximo que é único e múltiplo apesar da identidade.
( Lygia Fagundes Telles )