sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marcavam seis horas e alguns minutos quando aceitei o meu próprio convite. Queria parar de pensar um pouco nos impedimentos que a vida traz e que eu trago também, pensando bem eu deveria cuidar mais de tudo; agora me enjoa ver as moedas jogadas na mesinha, a xícara ainda suja de café, a mala desarumada de quem acabou de chegar e já pensa em partir, roupas, roupas, roupas em cima da cama que fica exatamente no chão. Total desordem. Vida de merda. Cansaço sem fim.
Não vou nem tocar no assunto do que vejo lá fora, tudo porque tenho preguiça. Preguiça dessas pessoas que não conheço; mas o que mais me atormenta é o voltar, voltar pra casa nunca era tão decepcionante e por isso mesmo penso em mudar, não quero mais nenhuma desordem por perto. Foi a essa hora, seis e pouco mais ou menos que enjoei de ver tudo isso e aceitei. Pronto, agora ficaria feliz e a xícara suja seria apenas uma xícara suja (e poderia sujar várias); as moedas podiam sumir (criar pernas e saltar janela à baixo); a mala ficaria quieta (apertada, fechar os dois zípers e guardá-la já que não pensava mais em ir embora). Tudo parece perfeito, um plano genial que só uma pessoa como eu poderia ter! Fechado ali no sexto andar, naquele quarto de empregada ninguém poderia imaginar que perder o controle da felicidade instantânea fosse tão prazeroso. Quer se a todo momento, a todo momento.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

"Nu na sacada" - São Paulo, av. são joão - 2009
Pose-flash, no prédio da frente pessoas gargalhando gritam: saí daí peladão, pose-flash, vai por roupa camarada! Pose-flash, alguém nu numa sacada velha, meio bêbado e pouco feliz reproduzindo Edward Hopper, pose-flash, pensava quem eram as mulheres nuas nas telas de Hopper e de onde ele as espiava. Olha lá aquele cara rápido, toma vergonha ô idiota.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tomou a pílula, foi diminuindo indo indo indo
até ficou pequenininha, pensou:
"-Nossa como vou pegar a chave, preciso crescer"
tomou outra pílula, e mais outra, e outra, e outra
(Tem dias que é necessário, afinal)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

sem Sancho
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem Sancho, sem nada
sem nada




quinta-feira, 21 de maio de 2009

ser sozinho é um ser sozinho ser sozinho é um ser sozinho ser sozinho é só um ser sozinho

sábado, 18 de abril de 2009

Sobre o Suicídio
Antes de me suicidar exijo que me assegurem a respeito do ser, eu gostaria de estar seguro a respeito da morte. A vida me parece apenas como um consentimento à legibilidade aparente das coisas e à sua ligação no espírito. Eu não me sinto mais como a encruzilhada irredutível das coisas, a morte que cura, cura ao nos separar da natureza; mas se eu não sou mais que um divertimento de dores onde as coisas não passam? Se eu me mato, não será para me destruir, mas para me reconstituir, o suicídio não será para mim senão um meio de me reconquistar violentamente, de irromper brutalmente em meu ser, de antecipar o avanço incerto de Deus. Pelo suicídio, eu reintroduzo meu desígnio na natureza, eu dou pela primeira vez às coisas a forma de minha vontade. Eu me livro deste condicionamento de meus órgão tão mal ajustados com meu eu e a vida não é mais pra mim um acaso absurdo onde eu penso aquilo que me dão a pensar. Eu escolho então meu pensamento e a direção de minhas forças, de minhas tendências, de minha realidade. Eu me coloco entre o belo e o feio, o bom e o malvado. Eu me torno suspenso, sem inclinação, neutro, exposto ao equilíbrio das boas e das más solicitações...É certamente algo abjeto ser criado e viver e sentir-se nos mínimos recônditos, até nas ramificações mais impensadas de nosso ser irredutivelmente determinado. Não somos mais do que árvores, no fim de contas, e está provavelmente inscrito em uma extremidade qualquer da árvore de minha raça que eu me matarei um determinado dia...Pode ser que nesse instante se dissolva o meu ser, mas se ele permanecer inteiro, como reagirão meus órgãos arruinados, com que impossíveis órgãos registrarei eu o dilaceramento? Eu sinto a morte sobre mim como uma torrente, como o salto instântaneo de um raio cuja capacidade eu não imagino...Mas eis Deus de repente como um punho, como um feixe de luz cortante. Eu me separei voluntariamente da vida, eu quis remontar meu destino! E este Deus, o que diz ele? Eu não sentia a vida, a circulação de toda idéia moral era para mim como um rio seco. A vida não era para mim um objeto, uma forma; ela se tornara para mim uma série de raciocínios. Mas de raciocínios que giravam no vazio, de raciocínios que não giravam, que eram em mim como "esquemas" possíveis que minha vontade não conseguia fixar...Deus me colocou no desespero como em uma constelação de impasses cuja radiação chega a mim. Eu não posso nem morrer, nem viver, nem desejar morrer ou viver. E todos os homens são como eu.
Antonin Artaud (Linguagem e Vida)